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O facto de se anunciar repetidamente as emissões de dívida
soberana de alguns países a juros negativos fez-me pensar e pesquisar mais a
fundo as razões para isso acontecer, já que para mim não fazia sentido que os
investidores pagassem para um estado guardar o seu dinheiro ainda que esses
estados, como a Alemanha, tenham reputação de ter as suas finanças em ordem.
Cheguei à conclusão que os mercados estão a assumir uma
certa probabilidade de saída do Euro para cada um dos estados e uma expectativa
de valorização ou desvalorização cambial. Os mercados assumem que se um estado
sair do Euro as obrigações soberanas seriam automaticamente convertidas em moeda
nacional. Por exemplo, na Alemanha as obrigações seriam convertidas em Marcos e
seria expectável uma valorização do Marco relativamente ao Euro ou às outras
divisas nacionais; em países como Portugal Espanha e Itália seria expectável
que as divisas desvalorizassem.
Apesar de os juros serem habitualmente uma medida de risco
de bancarrota, neste caso não é exactamente isso que acontece. Esse efeito é
claramente acentuado pelo factor descrito e que é notório quer pelos juros
demasiado altos, quer pelos juros demasiado baixos (negativos) de alguns
estados.
Não será correcto dizer que a bancarrota e a saída do Euro
são coisas independentes uma vez que a razão mais provável para a desagregação
do Euro será um dos países “grandes” (Espanha ou Itália) perder a capacidade de
honrar a sua dívida em Euros. No entanto, ninguém se acredita numa bancarrota
da Itália ou Espanha sem que antes haja mutualização da dívida no Euro ou
desagregação do Euro e pagamento da dívida em divisas nacionais.
O que os mercados menos gostam é de incertezas, ainda menos
do que de risco de bancarrota, por isso não vale a pena continuar com a hipocrisia
de dizer que o fim do Euro ou a saída de estados não é uma hipótese; acredito que
a situação melhorasse bastante se se assumisse essa hipótese e se determinasse
exactamente como é que isso aconteceria e quais os riscos concretos dos
detentores de dívida soberana. Depois seria mais fácil calcular o efeito que
essas regras tinham nas taxas de juros e encontrar soluções para o eliminar.
Entretanto está a ocorrer uma injustiça no sentido em que
uns estados estão a beneficiar desse efeito à custa de outros que estão a pagar
a mais do que o que poderia ser associado ao seu risco de incumprimento.
A minha ideia para resolver o problema seria determinar uma
taxa mínima que os estados teriam que pagar para financiar a sua dívida, por
exemplo a taxa de referência do BCE (actualmente 0,75%), que corresponderia ao
risco zero de incumprimento. Os estados que se conseguissem financiar abaixo
disso teriam que ceder esse “lucro” para financiar parte dos juros dos países
mais prejudicados por esse efeito.
Caso de Portugal:
Para ser completo e não mal interpretado devo referir que o
problema português pouco tem a ver com os juros soberanos uma vez que o país já
está sob um programa de assistência financeira.
Sendo um país altamente deficitário é possível dizer que os
juros da dívida soberana estão a ser pagos por novo endividamento, geralmente
financiado pelos mesmos credores que assim estão a pagar os juros a si
próprios.
Assim que Portugal cumprir o programa de ajustamento e conseguir
equilibrar o défice, poderá nessa altura preocupar-se com os juros, tendo,
nessa altura, melhores argumentos de solidez financeira para conseguir taxas
favoráveis.
Os juros da dívida soberana portuguesa anunciados na
comunicação social são os juros implícitos das transacções em mercado
secundário, não são os juros a que o estado emite dívida mas sim a que os
detentores de dívida compram e vendem entre si. Esse mercado secundário tem
baixo volume relativamente ao total de dívida que existe, o que explica a
grande volatilidade e a pouca relevância para prever taxas a que o estado
conseguiria refinanciar a dívida de volume muitas vezes superior.
Além disso há outros efeitos, como por exemplo as
necessidades de capitalização da banca para cumprir novas regras que obrigou à
venda de obrigações do tesouro e que na altura provocou uma subida das taxas implícitas
até aos 20%; da mesma forma é provável que os aumentos de capital da banca e
decisões do BCE tenham contribuído para baixar essa taxa até aos valores
actuais de 8%. Não creio que nem essa subida nem essa descida sejam uma medida
de sucesso do programa de ajustamento. Em relação às emissões primárias,
aquelas que verdadeiramente interessam para o estado, têm sido feitas apenas
para prazos curtos e com juros a rondar os 3%.
Queria deixar uma nota em relação aos produtos de dívida. A
diferença entre Obrigações do tesouro e certificados de aforro (ou
equivalentes), é que as primeiras são transaccionadas em mercado secundário,
não são adquiridas ao estado mas sim aos detentores dessas obrigações que as
colocam à venda; já os ditos certificados de aforro são comprados ao estado e
financiam-no directamente. As OT’s estão com juros implícitos à volta de 8%, os
CA’s rendem juros à volta de 2%; parece-me óbvio quais é que os investidores
devem procurar. O acesso às OT’s em mercado secundário é disponibilizado por
quase todos os bancos comerciais de forma equivalente à bolsa de valores.
Cálculo de yields (taxa de juro implícita até à maturidade):
Devido ao interesse mostrado, deixo aqui um exemplo da minha folha de cálculo para yields de OT's, e exemplo das fórmulas de Excel para as calcular:
Cálculo de yields (taxa de juro implícita até à maturidade):
Devido ao interesse mostrado, deixo aqui um exemplo da minha folha de cálculo para yields de OT's, e exemplo das fórmulas de Excel para as calcular:
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Muita gente falou das últimas medidas do governo e do
discurso do PM. São os de dentro dos partidos da coligação que mais veemente
têm criticado (os de fora criticam sempre, e sem dar alternativas credíveis, por isso já ninguem liga).
Apesar de
não ser habitualmente dos meus comentadores de eleição, Pacheco Pereira desta vez foi o que
disse mais e melhor.
Eu próprio abri os olhos para algumas coisas e eu que até
agora apoiei o governo passei para os lados dos moderadamente cépticos. O povo
suportou todos os sacrificios que lhe foram pedidos, mas o que não suporta é a
injustiça.
A paz social é exemplo único em Portugal, até agora só se tinham manifestado minorias ruidosas que não falam por ninguem senão por eles mesmos e que não eram muitos. No entanto, agora manifestou-se a maioria silenciosa, aqueles que até agora tinham aceite com serenidade as dificuldades que atravessavam e que agora deixaram de acreditar que não se esteja a caminhar para uma espiral de recessão e austeridade. Apesar de tudo a manifestação foi pacifica o que fala bem a favor do nível civilizacional do povo Português, resistindo aos apelos dos mesmos de sempre para que se parta para a violência e insubordinação.
Sócrates falhou porque disse que tudo estava bem quando tudo estava
mal, e por dizer que estes sacrificios chegavam e de cada vez nos mandar mais
um PEC com promessa que era suficiente, até vir o próximo PEC.
Pela primeira
vez me parece que Passos está a ir pelo mesmo caminho e o povo que até agora
acreditou e aceitou os sacrificios percebe mais uma vez que a recompensa pela
sua atitude exemplar, são mais sacrificios. O povo quer ajudar a pôr as contas
do país em ordem, mas quer quem saiba fazer as contas e dizer o que é
suficiente, quer um lider que não se lamente de fazer o seu trabalho bem feito.
Eu sempre defendi que devia haver um ajuste duro, e que inevitavelmente passava por austeridade, mas um ajuste rápido dado em dose forte mas única. Agora se por a austeridade criar recessão isso faz com que se aumente a austeridade, e que por sua vez aumenta a recessão, percebe-se bem onde isto vai dar.
Quanto a medida da alteração à TSU foi anunciada percebi que a maior diferença era a alteração dos custos da empresa para o trabalhador mas que o total se mantinha semelhante e o total era a mim o que mais interessava, porque o resto ajustar-se-ia naturalmente; empresas com mais liquidez iriam investir mais dando à economia o que a diminuição dos salários iria tirar ou iriam simplesmente aumentar os seus trabalhadores mantendo a relação anterior a essa lei. O aumento do total foi de 1,25% o que parecia pouco mas que vim a perceber que não é, como as empresas têm mais excepçoes ao pagamento de TSU do que os trabalhadores, o total que o estado vai facturar sobe, segundo alguns comentadores em cerca de 15%. Isso sim já considero um esmagamento adicional à economia e já não posso apoiar esta medida.
Quando ao futuro do governo, está agora sériamente comprometido. Vozes relevantes dos partidos da coligação já não apoiam o governo e os próprios ministros já estão desconfortáveis, nomeadamente o lider do CDS que quebrou a lealdade ao governo a favor da lealdade ao seu partido, ao qual devia uma explicação.
Teria muita pena se o governo não aguentasse porque continuo a achar que é o melhor governo que Portugal teve desde que me lembro, e uma equipa escolhida com base em competências. Infelizmente o que mais está a falhar é o próprio PM.
Eleições antecipadas seriam uma calamidade para o país e uma perda de confiança internacional na governabilidade do país. Ninguem quer isso, nem o próprio PS. Substituir o PM mantendo a equipa escolhida pelo anterior PM dá o mesmo resultado que deu o governo de Santana Lopes.
Não sei qual é a solução. O presidente convocou o conselho de estado e isso mostra que está ciente e percebeu antes de toda a gente a dificuldade de sair desta situação. Com muita pena minha o conselho de estado não é tornado público, mas ainda assim penso que só daí poderá sair alguma novidade relevante para sair do impasse.
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Este último anúncio do PM foi para mim uma desilusão, não pelo que foi anunciado mas pelo que não foi. Desde que este governo entrou em funções eu fui seu defensor, e continuo a ser da opinião que o país precisa de mudanças radicais e que seria preferível um ajuste duro mas rápido e eficaz em vez do conformismo e inacção que têm sido hábito dos governos sucessivos. Esperava ouvir sobre mudanças no estado e não apenas sobre mudanças nos impostos.
O anúncio do PM e a baixa de salários
Este último anúncio do PM foi para mim uma desilusão, não pelo que foi anunciado mas pelo que não foi. Desde que este governo entrou em funções eu fui seu defensor, e continuo a ser da opinião que o país precisa de mudanças radicais e que seria preferível um ajuste duro mas rápido e eficaz em vez do conformismo e inacção que têm sido hábito dos governos sucessivos. Esperava ouvir sobre mudanças no estado e não apenas sobre mudanças nos impostos.
Quanto às medidas em si, a que mais se destacou foi a
transferência do custo com a SS, das empresas para os trabalhadores, no sector
privado. Isto representa uma baixa generalizada de salários, a favor das
empresas.
Muitas empresas precisam disto para se manterem solventes e
competitivas. Não vai provocar uma corrida às contratações, mas vai evitar
algumas falências e numa crise como esta é um objectivo mais realista abrandar
o aumento do desemprego do que reduzi-lo.
Aquilo que as empresas não conseguem fazer por lei, baixar
salários de quadros antigos, desadequados da realidade actual, o estado fez por
elas. Por outro lado, as empresas eficazes e em que os postos de trabalho sejam
eficientes e com crescimento podem perfeitamente converter esta poupança em
aumentos salariais na mesma medida mantendo a relação anterior a esta lei.
Apesar da medida ter algum sentido, o ministro das finanças
anuncia que estas poupanças das empresas serão controladas e têm que ser
destinadas a contratações ou ao que o estado lá decidir. Borrou a pintura. As
empresas gerem bem, o estado gere mal, logo devem ser as empresas a decidir no
que investem aquilo que não lhes é cobrado em impostos. Isto é uma medida
estilo soviético, com motivações difíceis de compreender. Até parece que o
primeiro-ministro aconselhou Belmiro de Azevedo a baixar os preços, espero que
tenha sido um lapso porque dar um conselho de gestão ao gestor de topo em
Portugal, em vez de os pedir talvez, é para lá de ridículo.
Foram muitos os comentários a estes anúncios, saliento o de
Marcelo Rebelo de Sousa que foi o que gostei mais e que mais do que criticar as
medidas critica a falta de explicação, falta de rumo e ausência de medidas mais
corajosas em sectores que não foram ainda tão tocados. Já Manuela Ferreira
Leite critica a falta de bom senso, eu discordo; a governação geral deve
basear-se em bons modelos e boa teoria económica, o “bom senso” pode apenas ser
aplicado nos casos particulares e algumas minorias.
Quanto ao suposto ataque aos pensionistas, é consequência de
um problema que não é de agora nem deste governo. A esperança de vida está a
aumentar, e as receitas já estão no limite de esmagar os rendimentos dos
trabalhadores no activo, logo as pessoas terão que receber menos durante mais
anos, em média. Na minha opinião o objectivo das pensões do sistema público
devia ser limitado a assegurar a sobrevivência e dignidade humana dos idosos e
inválidos, as pensões deveriam ter um máximo de 2 ou 3 salários mínimos e os
descontos também muito menores enquanto se está no activo. Seria uma mudança
difícil porque não se pode cortar tanto as pensões a quem descontou um
balúrdio, mas poder-se-ia caminhar nesse sentido, o que não aconteceu, o total
de descontos aumentou em vez de diminuir.
Vítor Gaspar
Sem dúvida o ministro que mais gosto de ouvir e até com quem
já mais aprendi. Parece-me ser a pessoa ideal para o cargo mais difícil do
governo, e não sendo político de raiz não tem preocupação em agradar a ninguém
nem medo de avançar com o que acredita ser o melhor. Foi a pessoa que surgiu a explicar a trapalhada do anúncio do PM e será a pessoa a ouvir com
mais atenção na apresentação e discussão do OE de 2013.
Referências:
Anúncio da quinta avaliação da Troika: http://www.youtube.com/watch?v=HN-4b14XXcw
Entrevista sobre o mesmo tema: http://www.youtube.com/watch?v=ySaTt-scIhE
Dia da FEP (Maio 2012): http://www.youtube.com/watch?v=9wwakw1W5-M
Referências:
Anúncio da quinta avaliação da Troika: http://www.youtube.com/watch?v=HN-4b14XXcw
Entrevista sobre o mesmo tema: http://www.youtube.com/watch?v=ySaTt-scIhE
Dia da FEP (Maio 2012): http://www.youtube.com/watch?v=9wwakw1W5-M
A Troika e o défice
Nunca fez sentido determinar objectivos de défice, porque o
défice só é calculado depois do fim do ano e entram para a equação várias
medidas que não é possível determinar com rigor mas apenas estimar. Ao fim de 8 meses do ano é possível estimar com mais precisão do que aquando da elaboração do OE 2012, mas ainda assim, estimar.
Por isso falharam as metas de défice nos tratados europeus e por isso falharam agora. O défice é um indicador importante mas não é possível determinar um número que corresponda ao sucesso ou insucesso do ajustamento. Obviamente, a Troika cedeu, depois de ela própria ter falhado as estimativas, na minha opinião não significa que o programa falhou.
Por isso falharam as metas de défice nos tratados europeus e por isso falharam agora. O défice é um indicador importante mas não é possível determinar um número que corresponda ao sucesso ou insucesso do ajustamento. Obviamente, a Troika cedeu, depois de ela própria ter falhado as estimativas, na minha opinião não significa que o programa falhou.
A economia e o crescimento
A economia, eventualmente, há-de voltar a crescer, o
desemprego há-de diminuir e haverá dias melhores que estes. Sempre foi assim, e
não é a primeira vez na história que há uma crise, nem uma onda de pessimismo
generalizado. Mas são os privados e as empresas que vão liderar a recuperação.
O estado tem a difícil missão de não estorvar.
Do milagre da multiplicação dos escudos, dos euros e das coisas até à crise actual
1 comentários Publicada por João Barbosa à(s) 10:31
Decidi escrever este texto como apanhado das minhas ideias e
do meu relativamente curto conhecimento da actual crise e das suas causas, consequências e
soluções.
O dinheiro e as motivações
Recentemente li um artigo que comparava a actual crise com a
situação do país nos séculos 17 e 18, marcados pelo grande influxo de ouro
brasileiro e pelo suceder de uma crise profunda e bancarrota nacional.
Então o que me abriu os olhos, foi reparar na relação entre
o fluxo de dinheiro e o desenvolvimento primário (agricultura e industria) do
país. Um país quanto tem um grande influxo de dinheiro, seja ouro, seja
petróleo, seja crédito, o que faz com esse dinheiro? O dinheiro não serve para
plantar na terra nem para alimentar uma fábrica transformando-o em algo melhor,
serve apenas para uma coisa, comprar coisas! Logo um influxo de dinheiro tem a
consequência de tornar um país importador.
Ao contrário do que aprendi na disciplina de história, a
minha opinião é que o ouro do Brasil não foi mal gasto, mas sim gasto da única
forma possível, comprando coisas. Mas teve ou não relação com a bancarrota
nacional do século 18? Provavelmente sim, pois o país ficou dependente de uma
droga e enquanto andou sob a sua dependência não desenvolveu os sectores
primários, porque não era preciso. O ouro foi prejudicial ao desenvolvimento
primário do país por existir, não por ter sido mal gasto.
Então o que é que faz com que um país se desenvolva? Digamos
que a fome é a mãe de todas as motivações. Ainda revisitando a história de
Portugal, e mais uma vez discordando com os livros da escola, eu sou da opinião
que Portugal não se aventurou nos descobrimentos por ser um país de bravos, mas
sim por ser um país pobre. Explica muita coisa.
A história mais recente
Indo à história mais recente do século 20, e começando pelo
Estado Novo, a política económica seguida por Salazar era só gastar o que
temos. Não dever nada a ninguém, não pedir nada a ninguém. Se por um lado o
país não tinha dívida pública nem défice, por outro lado ficou parado no tempo,
nos 50 anos que se seguiram à grande depressão; não acompanhou o
desenvolvimento dos países que actualmente são os mais desenvolvidos como EUA,
Japão, Reino Unido, Alemanha e França.
Curiosamente os países referidos foram os principais
participantes da segunda guerra mundial (faltando apenas a URSS); o que me leva
a pensar numa outra motivação, a guerra. Não vou dizer que a guerra é uma coisa
boa, mas a verdade é que algumas consequências são positivas como o
desenvolvimento científico e tecnológico, a renovação do tecido económico, a
distinção entre o essencial e o acessório e até o desenvolvimento
civilizacional e da mentalidade dos povos.
O crédito e a dívida pública
Nestes últimos 30 anos, em Portugal, o estado contraiu uma
quantidade enorme de crédito com vista a acelerar o desenvolvimento do país e
melhorar a qualidade de vida dos cidadãos; a dívida pública cresceu
ininterruptamente ultrapassando nos últimos anos 100% do PIB, cerca de 200 mil
milhões de euros. Actualmente Portugal é dos países com mais km de auto-estrada
por km quadrado, mais e melhores pontes, um dos melhores serviços de saúde, das
melhores escolas (em infra-estrutura não em qualidade do ensino).
No caso dos privados, a situação é equivalente. O crescimento
do crédito privado foi enorme e o seu total anda também na casa das centenas de
milhares de milhões de euros. Este crédito surgiu fundamentalmente sob forma de
crédito habitação com responsabilidades partilhadas pelos particulares que
compraram casas de valores que nunca poderiam liquidar, dos bancos que fizeram
má avaliação dos riscos e campanhas agressivissimas com juros reduzidos, e do
próprio estado que deu incentivos fiscais às famílias e aos bancos para que
houvesse mais crédito.
O crédito fácil originou imensa construção e imensa venda de
casas por valores que, apesar de nunca poderem ser pagos, seriam cada vez mais
altos. Esta é a bolha do imobiliário, não é só nossa e aconteceu um pouco por
todo o mundo desenvolvido começando nos EUA e difundindo-se através de ligações
financeiras, de derivados de crédito e de simples imitação de políticas pró
casa própria.
Em Portugal, esta bolha alimentou uma parte importante da
economia, a construção. Mas como uma bolha é uma bolha, os ganhos são tão
fáceis que mesmo esse sector não se tornou suficientemente eficiente para que o
custo real da construção decrescesse, e isso sim permitisse uma melhoria
sustentável das possibilidades de ter casa própria e casa nova a valores
suportáveis.
Então em que foram gastos aproximadamente 200 mil milhões de
crédito público e 200 mil milhões de crédito privado? Infra-estruturas,
imobiliário e importações.
O nível de vida médio subiu? Sim. Agora muito mais gente tem
casa nova, carro novo, circula em auto-estradas topo de gama, tem shoppings a partir
(imobiliário comercial), e muita coisa que não havia há 30 ou mais anos.
O país desenvolveu-se? Em determinados aspectos sim, mas não
nos sectores primários, agricultura e industria.
Então ter dinheiro não é bom? O dinheiro é um activo
transaccional, ganhamos dinheiro com aquilo que produzimos e vendemos, e
gastamos comprando coisas que nos são mais úteis do que as que temos para
vender. Quando a nossa forma de “ganhar” dinheiro é pedi-lo emprestado,
descuramos a primeira parte e funciona tudo bem até nos deixarem de emprestar.
E o consumo?
O consumo interno é geralmente um bom indicador de
prosperidade económica, mas não no caso português. Nos anos entre 2000 e 2009 o
consumo interno foi bastante alto em Portugal, perto do top em termos de
consumo/pib per capita, no entanto o crescimento nesses anos foi o 2º pior da
ocde, praticamente nulo. Há duas razões para esse fenómeno, a primeira é a
origem do dinheiro aplicado que foi crédito e não criação de valor; e a segunda
tem a ver com o destino do consumo, neste caso foi fundamentalmente em imobiliário
e bens importados, não em inovação, não em empreendedorismo, não nos sectores
primários.
A dívida pública actual e os falsos vilões
Muito mais difícil do que expor as ideias anteriores é
descobrir ou sequer sugerir soluções que tenham alguma hipótese de resolver o
problema.
Vou começar por descartar hipóteses e especificamente alguns
vilões que têm sido culpados com base em falácias ou simples falta de
conhecimento económico.
Os bancos:
Os bancos foram as instituições privadas mais prejudicadas
com a actual crise, para quem acredite que os mercados raramente se enganam
(como eu) basta ver o histórico de cotações em bolsa.
Para quem não se fie nisso, há que pensar que os bancos têm
actualmente em carteira balurdios de crédito que, mesmo não pensando no mal parado,
dá prejuízos sistemáticos. Os créditos habitação concedidos nos anos antes da
crise rendem spreads ridículos abaixo de 1% indexados à euribor que está em
mínimos históricos; ou seja o juro real que rendem ao banco fica em muitos
casos abaixo de 2-3%.
A dívida pública está em grande parte nas mãos dos bancos
nacionais e foi em grande parte contraída a juros baixos, muito mais baixos do
que os juros actualmente praticados no mercado secundário; ou seja, para alienarem
essas posições seria com grandes prejuízos, e muitos tiveram que o fazer para
conseguir sobreviver e cumprir as exigências de capital. Neste caso há ainda a
agravante moral da pressão exercida pelos governos à compra de dívida pública,
com destaque para as frequentes reuniões entre Teixeira dos Santos e os CEO’s
dos maiores bancos nacionais de onde saíram compras de dívida, nos meses antes
do pedido de resgate.
Os juros da troika:
Apesar de poder ser mal visto que os parceiros da UE cobrem
juros de 4-5%, bastante acima dos com que o país se financiou nas décadas
anteriores, e se calhar acima do que é sustentável, na minha opinião esse é um
pormenor estético e não tem nada a ver com a causa nem com a solução dos
problemas.
Por um lado é certo que se nos cobrassem 0% de juros por uma
quantidade ilimitada de dinheiro, sem exigências que limitem o crescimento da
dívida continuava tudo bem, vivíamos à custa dos outros mas vivíamos bem. Por
outro lado, os actuais credores estão a emprestar sabendo que é muito difícil
para Portugal sequer travar o crescimento da dívida quanto mais repagá-la. De
modo que, quer os créditos vencidos, quer os respectivos juros, serão pagos por
novos empréstimos concedidos pelos mesmos credores; ou seja terão que ser os
credores a liquidar os seus próprios créditos deixando-os na prática com poucas
hipóteses de algum dia virem a ser reembolsados ou capitalizar o que quer que
seja.
A troika e as políticas actuais
O ajustamento do estado.
O programa de ajustamento exigido pela troika é muito
importante para abrir caminho para um futuro sustentável, e isto porque o
imenso crédito que o estado contraiu tornou-o demasiado pesado, com demasiados
custos e pouco eficiente. É preciso distinguir o essencial do acessório,
reduzir os custos e tornar os serviços mais eficientes.
Os impostos.
Este é o ponto onde eu discordo com as actuais políticas,
penso que o excesso de carga fiscal sobre uma economia pouco produtiva e
ineficiente estão a atirar para a bancarrota uma série de PME’s e particulares
reduzindo a base para um futuro crescimento da economia.
Em teoria, os impostos deveriam ser sobre o “excedente”, ou
seja sobre os lucros das empresas e sobre a diferença entre os ganhos e os
gastos dos particulares. Na prática muitos impostos são cegos, como por exemplo
o IVA, e podem facilmente inviabilizar empresas viáveis ou fazer crescer o
custo de vida dos particulares para valores acima do rendimento disponível.
A receita fiscal tem um limite e há vários indicadores que
indiciam que esse limite já foi ultrapassado até ao ponto em que um aumento de
impostos origina uma diminuição de receita e por outro lado uma redução de
impostos não origina necessariamente essa perda no presente e muito menos no
futuro.
O desemprego e o emprego.
O desemprego é um reflexo do ajustamento da economia. Em
tempos em que o estado não tem margem para contratar por caridade e em que
muitas empresas não sobrevivem, especificamente aquelas em que os postos de
trabalho não são eficientes; o desemprego aumenta.
Em Portugal o desemprego é especialmente dramático devido ao
excesso de crédito das famílias. Durante os anos anteriores à crise as pessoas
endividaram-se em vez de poupar e agora em vez de mantimentos para o “Inverno”,
têm uma prestação para pagar.
Este ajustamento é também especialmente doloroso porque a
mentalidade das populações vai muito no sentido de ter emprego fixo para toda a
vida, sem formação, sem adaptação e sem preocupação com a própria eficiência.
Não existe uma cultura de produtividade enraizada, as pessoas preocupam-se mais
em saber se o salário cai ao fim do mês do que em saber se nesse mês criaram,
para o seu empregador, valor igual ou superior ao seu salário. Tudo isto faz
com que uma boa parte dos desempregados não estejam preparados para ser
reintegrados na economia.
No entanto, para mim o mais preocupante é o desemprego
jovem, nomeadamente jovens qualificados, com vontade de trabalhar e muita probabilidade
de serem eficientes. Há vários possíveis motivos para isso, um dos quais são as
ainda rígidas leis laborais, que não facilitam o despedimento e a renovação da
massa laboral; não permitem a substituição de um funcionário ineficiente com
salário mais alto por um eficiente com salário menor, ou até substituição de um
por dois ou mais sem aumento significativo dos custos e efectivamente reduzindo
o desemprego.
Não é certo se a flexibilização das leis laborais reduz ou
aumenta o desemprego, mas uma coisa certa é que melhoram a eficiência do
emprego existente e abrem caminho para um futuro crescimento.
As PPP:
Várias destas parcerias são reconhecidamente ruinosas para o
estado, em que por exemplo, em algumas delas o estado garante ao parceiro
privado um rendimento da ordem dos 15% anuais sobre o investimento.
No entanto, há que relembrar os apologistas de que se
rasguem os contratos, que em estados de direito não se rasgam contratos e que
se o estado o fizesse, esses parceiros facilmente ganhariam as acções em
tribunal (independência de poderes) e receberiam o seu quinhão de qualquer
forma. Este problema foi criado por quem assinou os contratos em nome do estado
e não em quem beneficia deles. Para ser resolvido tem que ser com negociação
cuidadosa e não com expropriação.
E então paga-se ou não a dívida pública?
A liquidação total ou de uma grande parte da dívida está
fora do conjunto das possibilidades. A dívida só desapareceria com uma
reestruturação unilateral em que se rasgavam contratos obrigacionistas com a
intenção de não assumir a dívida e ao mesmo tempo manter todas as regalias que
se obtiveram com o crédito, no fundo burlar os credores. Pois isso, uma
reestruturação sem acordo dos credores isolaria o país do mundo a nível de
crédito e mesmo a nível de transacções comerciais, teríamos que cair até ao
nível de vida em que o país pode ser auto-suficiente e esse é inimaginavelmente
baixo.
Mesmo as reestruturações de dívida por mutuo acordo, que obviamente
só surgem quando os credores sabem que é isso ou a bancarrota total, segundo a
história recente não dão bons resultados, nem resolvem problemas. Por exemplo,
a Argentina que entrou em bancarrota há cerca de 10 anos, ainda não resolveu os
processos com os credores da altura e poderá demorar gerações até voltar a ser
um país confiável. Já no recente caso da Grécia, um perdão significativo da
dívida nada adiantou, fazendo crer que os problemas vão para além do tamanho da
dívida ou dos respectivos juros, mas melhor descritos como uma dependência
crónica de um país que gasta mais do que produz e que independentemente do
tamanho total da dívida, o défice está para ficar.
Portanto, não se paga nem deixa de pagar. Num momento em que
o país já mostrou falta de capacidade para controlar o crescimento da dívida e
por isso perdeu a confiança internacional, surgiram os credores de recurso que
compreensívelmente exigem “apenas” que se controle o crescimento da dívida (o
défice), muito antes de pensar sequer em reduzi-la.
Os juros e os parceiros europeus
Os juros, apesar de não serem a causa dos problemas, nem uma
parte importante da solução, fazem parte da equação.
Assim que o país consiga atingir o excedente primário, ou
seja ter mais receita do que despesa excluindo juros; a confiança de que o país
consegue controlar o crescimento da dívida deverá permitir o regresso a taxas de
juro mais de acordo com as maiores economias da Europa; para isso poderá não
bastar um único exercício para os credores se certificarem que esse resultado
não se deve a receitas extraordinárias ou a um esforço fiscal insustentável.
Se, tendo sido dados esses passos, não for possível obter
crédito junto de instituições privadas a custos que originem um défice sustentável, os parceiros
europeus, incluindo os estados, o BCE, ou as instituições criadas para o
efeito, deverão voluntariar-se ou ser chamados a normalizar as taxas de juro
dos estados membros cumpridores.
O futuro do Euro
Está já provado que os pressupostos sobre os quais assentou
a criação do Euro não foram suficientes para assegurar a sua sustentabilidade
no longo prazo.
A continuação do Euro vai depender da criação de novas
regras, novas instituições e maior regulação central na zona Euro; ou seja um
passo no caminho da federalização da Europa. Isto para, definir melhor direitos
e deveres dos estados membros, garantir estabilidade no acesso ao crédito
público, normalização da regulação e credibilidade dos bancos oriundos dos
diferentes estados.
Na minha opinião, há apenas um país que pode ou não sair da
zona Euro, que é a Grécia, isto porque, um caso pode ser uma excepção, mas dois
casos é um problema sistémico. Portanto o mais provável é que se tiverem que
sair dois países, acabe o Euro. A Grécia está obviamente no lugar da frente da
porta da saída, depois de já ter passado por uma reestruturação da dívida que
se revelou inconsequente.
Com o nível de dependência da moeda única que se criou seria
terrível para qualquer país que saísse, provocando uma corrida aos bancos, uma
fuga de capitais, desvalorização da moeda própria, provavelmente um caos social
e também provavelmente a instituição de um regime de ditadura para fazer face à
necessidade de repor a ordem e a segurança e de resolver essa crise.
Penso até que uma desintegração total seria preferível à
saída de um único país.
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Como sabem, a Educapoker.pt comunicou recentemente aos seus
membros que deixará de actuar em Portugal na sequência de acções de uma
determinada força de segurança, a Asae, que apreendeu todo o material de
trabalho no escritório onde funcionava a Educa juntamente com o PokerPT.
Peço desde já desculpa às pessoas que me seguiram para esta
escola e pela falta de comunicação destes últimos meses. Apesar de saber de
alguns dos problemas, eu próprio não tinha qualquer informação sobre o futuro,
nem sobre a forma como os sócios da Educa, nos quais eu não me incluo, iriam
decidir continuar face às circunstâncias. Quando me perguntavam se eu ainda
fazia parte da Educa, nem eu próprio sabia dizer, soube apenas ontem e através
do fórum que não há futuro para a Educa.pt.
Quando ao problema com a Asae, eu não estava presente mas
pelo que sei chegaram ao escritório onde funcionava a Educa e o PokerPT com a
informação de que o PokerPT era um site de jogo estilo casino online e que as
pessoas se reuniam lá para jogar. A Educa nem sabiam que existia, mas não
fizeram distinção e levaram todo o material.
A única informação que prestaram sobre o andamento do processo
foi que lá para o fim do ano (6 meses ou mais depois da apreensão) alguem
haveria de decidir o que fazer com aquilo e conduzir ou não uma investigação.
Assim funciona a justiça em Portugal. Levam o material todo, paralizam uma
empresa que não sabem que existe, com uma pseudo-acusação que não tem nada a
ver com a realidade e a única coisa que sabem com certeza é que o processo vai
andar devagar.
Isto é a justiça pelas próprias mãos feita por uma força de
segurança do estado, sem investigação adequada, sem acusação fundamentada e muito
menos qualquer condenação ou hipótese de defesa em tribunal. Não estamos num
estado de direito.
Em Portugal a justiça funciona por erosão, as forças de
segurança chateiam, estorvam, atrapalham o mais que podem sem que haja qualquer
decisão de um tribunal. O resultado disso é óbvio, os mais fracos desistem sem
forças para lutar contra esse desgaste e os mais fortes resistem ficando anos à
espera de uma condenação ou ilibação que nunca chega.
Durante anos tem-se assistido em Portugal a criminosos
andarem imunes ao sistema, raramente os julgamentos terminam, e quando acontece
há recursos até ao supremo tribunal, até ao tribunal constitucional e se calhar
até ao Papa, nunca havendo decisões definitivas e sendo até nalguns casos
notáveis criminosos depois de condenados a penas de prisão eleitos para
presidir a câmaras municipais.
No entanto, hoje, a face da moeda que estou a conhecer não é
a dos criminosos que nunca pagam pelos seus crimes, mas dos inocentes que nunca
têm oportunidade de se ilibar, de recuperar a sua imagem e exercer os seus
direitos.
Sem que eu tenha qualquer formação em direito, a minha
opinião é que a Educapoker.pt é perfeitamente legal, senão nunca tinha aceite
fazer parte dela. Como se sabe as leis do jogo online ainda não existem e as
que são aplicadas são no mínimo ambíguas e cinzentas. A Educapoker é uma escola
e nem sequer fornece poker directamente, por isso ainda que existissem essas
leis não seriam aplicáveis. Ensinar a jogar poker não é ilegal. Os parceiros da
Educapoker, fornecedores de poker online, são entidades completamente
independentes da Educa, todos eles legais no seu local de origem onde são
licenciados para essa actividade.
Eu não sou pessoa de ceder facilmente quando acredito estar
do lado certo da questão, por isso a minha posição não era de que se devesse
desistir da Educa mas sim continuar a funcionar. No entanto, respeito e
compreendo a posição do sócio espanhol da Educa.com, quando decide que não vale
a pena continuar a investir num país sem lei, sem direitos e sem justiça.
Hoje, sinto vergonha de ser português.
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Tribunal constitucional
Depois de ainda há pouco tempo ter dado a minha opinião
acerca da intervenção do TC em questões de governação e especificamente na lei
do orçamento a vergonha continua.
Então vejamos, a constituição está sujeita a interpretação
subjectiva e precisa de um tribunal específico para a interpretar e de juízes de
topo (supostamente) que mesmo assim raramente têm uma interpretação unânime.
Agora vem-se a descobrir que uma das últimas interpretações
originou um acordão, também ele sujeito a interpretação subjectiva (tratar-se-á
de poesia?). Quando a comunicação social e os governantes deram algumas dicas
sobre a interpretação que tinham feito vem o presidente do TC dizer que não era
assim que devia ser interpretado.
Será isto possível? Que a lei fundamental do país não seja legível
e que os acórdãos feitos para objectivar a sua interpretação sejam também subjectivos?
Será necessário um novo tribunal para interpretar os acórdãos do TC e
determinar o que querem dizer?
Parece-me incrível que o mais alto jurista em Portugal não compreenda
as suas competências e a separação de poderes legislativo e judicial. Não me
surpreende porém o silêncio de Cavaco Silva, o presidente que fala pouco, sobre
pouca coisa, bastante vagamente. Este é claramente um caso de presidência, a
regulação da separação de poderes e do funcionamento das instituições. Quando penso
porque votei nele, lembro-me que o adversário era Manuel Alegre, e que afinal
estar calado até nem é assim tão mau.
Apesar de ser um contra-senso do ponto de vista lógico, o
facto de adiar a consequência do acórdão para 2013, não deixa o país sem orçamento
de estado. Obrigar a aplicação em 2012 inutilizaria o orçamento em vigor pois
não se trata de “devolver” mas sim de pagar algo que não está previsto no
orçamento mais rígido da segunda república. Deixar o país sem orçamento nesta
altura teria consequências catastróficas a nível interno e externo. Ainda bem
que dentro do disparate alguém teve o bom senso de incluir essa alínea.
Função pública
Quando ao caso concreto da suspensão do pagamento do 13º e
14º mês, achei absurdo que o TC decidisse determinar que era inconstitucional
com base numa lei ultra vaga e que em nada sugere que possa ser aplicada neste caso.
Salvaguardo que é a minha opinião subjectiva e não tenho nenhuma formação em
direito. Mas sei ler.
Se eu sou a favor desses cortes? Por princípio não, na
prática não sei.
A função pública é um dos problemas orçamentais em Portugal,
há demasiados funcionários públicos e pouca produtividade. Nesta crise
orçamental havia duas hipóteses, ou se reduzia salários ou se despedia. Por
princípio sou a favor da segunda hipótese, não por ter algum gosto em ver
pessoas no desemprego mas precisamente para salvaguardar a motivação, formação,
a progressão nas carreiras e os aumentos salariais aos que ficam.
Os problemas sociais que haveria com mais 100 mil
desempregados (Gaspar soltou esse número), no caso de se seguir esse caminho,
seriam imprevisíveis e potencialmente nefastos para ao país.
Reduzir os ordenados e congelar progressões ao mesmo tempo
que se congela a motivação e a produtividade da função pública é a maneira mais
suave de resolver o problema, mas deixa por resolver os problemas fundamentais.
Igualdade? Qual igualdade? Paulo Portas soube-nos esclarecer
quando disse que a responsabilidade para com a redução do défice não é igual no
sector público, cujos ordenados são pagos com défice e no sector privado,
que tem menos responsabilidade no assunto e que mesmo assim já contribui de uma
forma “pesada” com impostos para essa causa. Acrescento ainda a desigualdade na
estabilidade do emprego nos sectores público e privado, com o pormenor
interessante dessa estabilidade estar correntemente a ser assegurada por via
desses cortes salariais.
A constituição, a esquerda e os interesses instalados.
3 comentários Publicada por João Barbosa à(s) 07:48
A constituição:
Em regimes republicanos é necessária uma lei constitucional
para definir direitos e deveres e regular as instituições, para definir quais
são, como são eleitas, os seus âmbitos de governação. Deve ser suficientemente
sucinta e compreensível para que todos possam compreender o seu conteúdo, desde
o cidadão comum até ao presidente da república que é por definição o principal
garante do seu cumprimento.
Assistimos agora em Portugal a uma situação em que se torna
óbvio que a constituição portuguesa não é uma constituição, mas sim uma amálgama
de artigos, uns constitucionais, outros de motivação ideológica, outros que nem
se sabe o que são. Em vez de ser compreensível ao cidadão comum, são
necessários 12 juízes constitucionais para compreender o que lá diz e nem esses
estão de acordo.
A decisão de tornar inconstitucionais os cortes dos
subsídios dos funcionários públicos, independentemente de se concordar ou não
de um ponto de vista político, é ridícula de um ponto de vista democrático. É uma
decisão orçamental tomada por maioria na assembleia da república, e o orçamento
de estado é a principal decisão política de cada ano e a mais importante do
governo e da assembleia. Estamos num país de burocracias e interesses
instalados em que já é muito difícil mudar o que quer que seja e o caminho é de
que seja impossível.
A constituição original de 1976 é uma vergonha para qualquer
democracia, dado que entre outras coisas indicava logo nas primeiras linhas o
rumo ao socialismo (em democracia não se poderá votar noutro rumo?). Apesar de
já ter sido muito reescrita nas inúmeras revisões constitucionais, só existe
uma solução verdadeiramente eficaz: rasgar e escrever de novo, de preferência
com 1/10 do tamanho e à imagem das constituições das sociedades modernas bem
sucedidas.
A esquerda, a esquerducha e os interesses instalados:
Os valores de esquerda são pilares importantes das
sociedades modernas, focam desde liberdades individuais à igualdade perante a
justiça. Para evitar confundir as coisas vou designar por esquerducha os
partidos que em Portugal se dizem “de esquerda” assim como as uniões sindicais
que lhes estão associadas.
Ao contrário do que se faz crer, a esquerducha portuguesa
não protege os pobres e os desfavorecidos, não promove a igualdade de oportunidades,
não promove a criação de riqueza (inequivocamente a melhor forma de combater a
pobreza).
Os problemas do país são muitos, estando de certeza a
esquecer-me de vários lembro-me por exemplo do desemprego, especificamente o desemprego
jovem e de longa duração, o trabalho precário, a falta de produtividade, a
ausência de criação de riqueza, ausência de investimento interno e externo,
etc.
O que não está sequer na lista dos problemas são os direitos
e salários dos funcionários públicos, aliás está na lista dos problemas mas é
por serem privilégios excessivos, ordenados em média muito acima da
produtividade, emprego certo, reforma certa, falta de qualidade, ausência de
oportunidade para quem está fora do sistema, etc.
A esquerducha defende os interesses instalados e as classes
privilegiadas, nomeadamente os funcionários públicos e trabalhadores de
empresas públicas, aqueles em que se gasta milhares de milhões e criam zero de
riqueza para o país. Um bom exemplo são as greves promovidas pela esquerducha,
porque em Portugal, hoje, só podem fazer greve aqueles que têm emprego certo e
reforma certa, os privilegiados.
Os empreendedores, que têm que se bater dia e noite por
produzir, criar riqueza, e conseguir milagrosamente acabar o mês ou o ano no
verde depois de pagar a carga insuportável de impostos, esses não têm direitos,
não fazem greves e não têm subsídios.
Não estou com isto a culpar os funcionários públicos em si,
mas sim políticas seguidas durante as últimas décadas em que a maior medida de
combate ao desemprego foi contratar mais funcionários públicos do que era
preciso, abdicando de selecção, formação e eficiência.
A função pública como está, está mal, apesar de ainda
usufruir de direitos excessivos faltam as motivações. Classicamente há duas
motivações (a cenoura e a cana), neste caso concreto, ou há progressões na carreira
baseadas no mérito (cenoura) ou despedimentos (cana), não haver nem uma nem
outra é a solução de compromisso que é a pior possível e a que não agrada a ninguém.
Eu sou a favor dos despedimentos para que se possa voltar a premiar o mérito,
pagar subsídios e abrir oportunidades a quem está fora e possa ser uma mais-valia.
A esquerducha, que vê apenas 1 cm à frente do nariz, diz que
os despedimentos criam desemprego e a
liberalização dos direitos do trabalho criam trabalho precário, pois é
exactamente o contrário. Se não há emprego para todos e pensando no interesse geral, que haja mais
oportunidades para quem tem mais mérito e para quem está de fora do sistema
nomeadamente os jovens qualificados. Que se possa despedir 1 funcionário
ineficiente que ganha muito para contratar 2 ou 3 mais qualificados a ganhar
menos e assim aumentar a produtividade geral. O excesso de direitos de uns é o
principal responsável pela criação de uma classe de trabalhadores sem direitos,
precários. Que sejam normalizados os direitos dos trabalhadores, para que possa
haver trabalhadores, para que as empresas possam contratar sem terem que se
comprometer a carregar um fardo para a vida.
Apesar de eu defender maioritariamente valores de direita
como privilegiar a criação de riqueza e o dinamismo da economia, relativamente
ao comodismo; por vezes quando sistematizo as minhas ideias acabo por perceber
que não consigo de deixar de pensar à esquerda no sentido das liberdades
individuais e igualdade de oportunidades, simplesmente penso mais em quem está
fora do sistema do que em quem está dentro, naqueles que de facto estão mal e
não nos que fazem de conta.
Edit:
Por questões de acessibilidade transcrevo aqui o artigo da constituição que serviu de base à inconstituicionalidade dos cortes dos subsídios aos funcionários públicos.
Artigo 13.º
Edit:
Por questões de acessibilidade transcrevo aqui o artigo da constituição que serviu de base à inconstituicionalidade dos cortes dos subsídios aos funcionários públicos.
Artigo 13.º
Princípio da igualdade
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.
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